OS OSSOS DO MUNDO
 

           Os ossos do mundo1 , primeira exposição individual de Brisa Noronha na Galeria Sé, reúne um conjunto inédito de esculturas em porcelana e pinturas que dialogam e se complementam no espaço expositivo. Central na prática da artista, o uso da porcelana em esculturas caracterizadas por uma aparente fragilidade, pelas formas orgânicas, e pela impressão do gesto no material, aparece aqui, pela primeira vez, como resposta ou manifestação tridimensional de uma pesquisa que se desenvolveu a partir da pintura. Mais do que uma escolha metodológica, esse processo se deu por conta das limitações impostas pela pandemia e a consequente falta de acesso da artista aos equipamentos necessários para produzir as esculturas em porcelana. Nesse período, Brisa Noronha voltou-se principalmente à pintura, encontrando ali os princípios que se desdobraram nas obras que configuram a presente exposição. Importante ressaltar que Brisa Noronha é uma artista que não parte de ideias ou projetos preconcebidos. Sua prática, pelo contrário, é caracterizada pelo fazer intuitivo e pelo embate constante com os materiais, a partir do qual emergem formas e imagens que guardam sempre alguma ambiguidade, não se esgotando em leituras unilaterais. As pinturas apresentadas em Os ossos do mundo combinam um conjunto diretamente baseado no universo cinematográfico do diretor russo Andrei Tarkovsky (1932-1986) e outras que tomam como ponto de partida as fotografias pessoais da artista.

No primeiro caso, Brisa Noronha seleciona stills de filmes nos quais identifica enquadramentos em que a composição dos elementos cenográficos e dos objetos de cena oferece o material visual que será retrabalhado na pintura. Essas imagens passam por uma espécie de processo de decantação ou redução que retém apenas alguns elementos selecionados que são transpostos e sintetizados no campo pictórico. Curiosamente, muitos dos objetos reproduzidos nas telas são potes, vasos e outros utensílios domésticos cujas formas constituem o vocabulário básico da porcelana; vocabulário este que serve como ponto de partida para as esculturas da artista.

Assim como em Eleonore Koch (1926-2018), a obra pictórica de Brisa Noronha compreende os gêneros da paisagem e da natureza morta. Ambas exploram, ainda, os vazios e a essência das formas, em composições esparsas que prescindem da figura humana e do conteúdo narrativo. Mas, enquanto em Koch observamos o estudo incansável das cores e contrastes, a pintura de Noronha emprega uma paleta sutil, na qual predominam os rosas, cinzas e beges pálidos que se aproximam do colorido de um Morandi (1890-1964). Há, sem dúvida, algo de metafísico nessas pinturas. Essa qualidade é enfatizada, ainda, pelos misteriosos títulos que as acompanham e que não são nada mais do que os textos das legendas que aparecem nos frames selecionados dos filmes de Tarkovsky, constituindo assim uma operação de readymade que adiciona uma certa dose de humor a esses trabalhos por meio do descompasso entre imagem e título. Em Os ossos do mundo, as pinturas convivem com as obras tridimensionais de modo dialógico, estabelecendo uma espécie de espaço ou cenografia virtual no qual as esculturas se inserem tal como personagens em ação. Ovos, ninhos, potes, castiçais e capelas são algumas das formas recorrentes na produção escultórica da artista, e aqui elas reaparecem em novos arranjos autoportantes e numa obra de chão constituída por dezenas de peças em diferentes formatos (Capela-caverna-tumba e os castiçais de vigília, 2021). Assim como na pintura, a escultura de Brisa Noronha explora as formas essenciais: o gesto de juntar as mãos que resulta no ovo, a construção semi elíptica que é ao mesmo tempo capela, caverna e tumba, o pote - utensílio básico e universal no desenvolvimento da civilização e estrutura fundamental do aprendizado da cerâmica - que, invertido, se torna abrigo, casa, local de proteção. São obras monocromáticas e fragmentárias, composições improváveis formadas pelo encadeamento das diferentes partes nas quais ideias de verticalidade - característica primordial da escultura - e colapso parecem conviver em tensão constante. Em contraposição à solidez de materiais como o bronze ou o mármore, a artista trabalha sempre com este material inerentemente frágil, o qual molda com as mãos para obter estruturas orgânicas e elementares que carregam as marcas dos gestos imprimidos sobre a matéria. Com sua branquidão, fragmentação e escala, essas esculturas são reminiscentes dos objetos encontrados em escavações arqueológicas. Mas não só isso: são trabalhos que sugerem a prospecção da origem das formas que são a expressão de alguns dos instintos e impulsos mais primordiais da espécie humana: criação, abrigo, morte, entre outros. Os ossos do mundo.

1. “Os Ossos do Mundo”"é um livro de viagens no qual Flávio de Carvalho registra sua passagem pela Europa de setembro de 1934 a fevereiro de 1935.

Kiki Mazzucchelli

 

Sé Galeria, 2021

São Paulo, Brasil

 

________________________________________________

 “Isso porque toda verdade está ligada a toda outra verdade, 

assim como toda coisa está ligada a toda outra coisa." 

– Emanuele Coccia

 

           O sopro transpassa o planeta mobilizando as intenções, impulsionando os fluxos, fazendo proliferar as formas. Espalham-se os cursos d'água que banham a terra, as raízes e os tecidos condutores das plantas, as veias que enrijecem as carnes. Voam as folhas e as sementes; erguem-se as traves e as casas. A argila guarda a lembrança das mãos; e um tino corre solto como uma flecha que tremula e assobia ao ser lançada com precisão.
 

O trabalho de Brisa Noronha é informado sobre o estudo do mundo como sistema, como cálculo contínuo para novos encontros e dissociações. A artista observa com cuidado o evento da matéria em pleno desenvolvimento, exercitando o que o físico-químico Ilya Prigogine — pensador de outras e mais abertas abordagens para a ciência — chamou de "escuta poética da natureza". Atenta aos fenômenos vitais, tateia as sugestões que nos apontam a obstinação dos padrões e os comportamentos complexos engendrados pela dinâmica delicadeza que mantém as ordens operantes.
 

Por meio de gestos experimentais, a artista pesquisa o caráter dos materiais e sua performatividade na superfície, jogando com suas qualidades físicas, com seus aspectos táteis, mas também com sua dimensão afetiva. Suas esculturas ganham tônus numa composição com o próprio chamado vindo da substância — entendida como agente ativo —, originando fabulações e destinos possíveis para novas existências. O frescor dessas materializações, estrategicamente inapreensíveis em seu constante estado de transmutação, revela a memória de sua criação na mesma medida em que vela os mistérios que carregam. 

 

Do manejo da porcelana, tão fina e translúcida quanto dura e resistente, vem o jogo de corpo em relação às coisas e suas profundezas. Das pinturas, vem a reformulação dessas vontades escultóricas como possibilidades no campo bidimensional, bem como a reelaboração dos espaços íntimos, permeados pelas recordações e sensações. Nos vetores entre ambos: surge o mergulho metafísico; a percepção ecológica expandida que supera as dicotomias entre mente e corpo, realidade e imaginação, natureza e cultura, lógica e intuição.


Ao elaborar um campo livre para manifestações terrenas, Brisa traça caminhos processuais não para ilustrar o campo teórico que orienta a prática, mas para dar vazão à própria maneira de se perceber e agir no meio. Do macrocosmo ao microcosmo, e do interior de volta para o todo, seu trabalho inclina-se com uma luz particular — sutil, mas em tudo incisiva —, sobre a teia de interações que nos compõe e que nos contém; sobre o que nos atravessa e o que atravessamos a todo tempo. Esquematiza, assim, sobre a mistura universal indivisível na qual fundem-se todas as partes, que movimentam-se nos infinitos ciclos de corporificação e desorganização, de vida e morte, de fim e renovação.
 

Germano Dushá

 

Gate Gallery, 2021

 

Nova Iorque, EUA

________________________________________________

​​

Entrevista em 2020 para Piscina – plataforma virtual com foco em mulheres artistas e profissionais das artes.

________________________________________________

           Nos trabalhos de Brisa, a repetição é um procedimento. Como na natureza, porém, nenhuma repetição é perfeita e cada repetição é única. Nos gestos da artista, seja ao modelar as peças, seja ao organizá-las, são produzidos corpos frágeis distintos que, em coletividade, ganham resistência e ocupam o espaço. Trabalhos como Cabeças de touro (2015) e Jokenpô (2017) podem ser entendidos como uma interessante metáfora sobre a coletividade e sobre a organização entrópica presente nos elementos da natureza. Na série Paisagens descontínuas e degradantes (2015), a mesma argila presente no conjunto de esculturas é transportada à tela, que em sua materialidade remonta à paisagens terrosas, áridas e inabitadas que parecem carregar consigo uma atmosfera que, como sugere o título, pode remeter à nossa realidade atual.

 

Ana Roman e Paula Plee – Trecho do texto curatorial escrito para a exposição “Ânima

 

Espaço C.C , 2019

 

São Paulo, Brasil

________________________________________________

GUARDAR UMA COISA
 
           Na década de 1960, a coreógrafa e bailarina americana Trisha Brown decidiu, enquanto dançava no palco, olhar para as pessoas que a olhavam dançar. Não se tratava de um enfrentamento, de um olhar dramático ou que pretendia algum confronto, mas de encarar e guardar no corpo o trânsito de olhares que aconteciam naquele espaço de movimento. Seu corpo tinha decidido observar cada corpo. Dali em diante, o rigor estrutural e a eloquência física de seus movimentos passaram a ser vivenciados de forma elementar, em seu contexto mais essencial, sem uma coreografia do gesto.
Tal como nas performances de Brown, os trabalhos da artista Brisa Noronha ocorrem a partir de gestos não idealizados e se deixam fermentar com energias advindas dos outros corpos num processo de dupla vidência – aquilo que olhamos também se presentifica nos olhando. E nos faz perceber cada componente em seu lugar: pedrinhas, quedas, papel, imagem, porcelana, superfície, brancos. São quebras, repousos, estilhaçamentos, equilíbrio, buracos e fendas. Topografia, coleção de gestos repetitivos e uma cartografia não lógica são as rotinas de desenho desses objetos no espaço. Assim, se organizam espacialmente, quando se aglomeram ou quase se esbarram. Guardam acúmulo de gestos e espessuras, tempos passados de amassar, de calor, de espera. Buscam algum eco de seus movimentos, um fio de troca entre os sentidos de todos os corpos e espaços envolvidos nessa visibilidade. E nos propõem perceber seu opaco silêncio, seu atrito seco.
Enquanto mira o espaço que seus trabalhos irão adentrar, em sua primeira individual, Brisa efetiva a simplicidade de um gesto qualquer. Que é fatura, modo de estar com a matéria, instância do fazer, da lida, é relação com os impasses das técnicas, com os tantos riscos de se estar em processo de urdidura das coisas. Esta simplicidade do “qualquer” não se relaciona com uma natureza do “não importa qual”, com o que aparece como indiferente. O “qualquer” é a natureza da coisa aceita, que adere, que se torna parte de algo e o modifica, que é acolhida em sua potencialidade de coisa a vir a ser em sua diversidade e mutabilidade. O “qualquer”, quando conjugado nos gestos de Brisa, pode ser percebido como o movimento, em sua singularidade, cuja lógica de comportamento não visa inaugurar um produto por meio de um predicado pré-existente ou classificável, mas sim, em sua própria afirmação de coisa que se dá no tempo do processo, tornando-se experiência.
Assim, diante da inquietação acerca de um gesto qualquer, podemos pensar nessa experiência de olhar fora do roteiro de tarefas ou vocações a que a arte foi circunscrita. Podemos nos colocar diante da ideia de que os gestos da artista não projetam nem prometem origem e destino. Querem apenas ser coisa aos nossos olhos, ato de existência como possibilidade ou falha, como instante ou contratempo, como insistência no corpo ou lampejo quase invisível. Dessas indefinições de não pertencer e não querer afirmar-se como coisa fechada em si, os trabalhos de Brisa Noronha nos chamam a habitá-los e guardá-los como “existências mínimas”. Ou seja, um modo de ser que o filósofo Étienne Souriau definiu, em 1938, em seu inventário sobre os diferentes estados de existência no mundo como “aquilo que poderia ser se...”. Os trabalhos de Brisa Noronha são aquilo que, na condição de estarem diante do olhar, convidam a experienciar e, ao mesmo tempo, enunciar uma existência temporária, tardia, fluída, fragmentada.

 
Galciani Neves
Galeria Murilo Castro, 2018
Belo Horizonte,Brasil.       
        


________________________________________________

 


PRÓLOGO

           Ao impor regras, padrões e preceitos para a realização de seus trabalhos, Brisa Noronha acaba por se concentrar no exercício empírico do fazer, que encontra seu desfecho na ordenação e organização do resultado de seus esforços. Empilhados, expostos lado a lado, organizados por tamanho, por afinidades ou decisões inconscientes da artista, esses objetos concentram nossas atenções sobre suas qualidades físicas, sua translucidez, sua rugosidade ou falhas de execução, e deslancham no espectador um processo de contemplação silenciosa dos mais notáveis. Esses conjuntos de elementos, cada qual com sua personalidade, seus defeitos e idiossincrasias, tem em suas origens um tema básico que acaba por ser variado em diferentes modulações e registros, e que nos colocam frente a frente a um sofisticado jogo de oposições.
 

Giancarlo Hannud – Publicado no catálogo Prólogo
31 Anual de Arte da Faculdade Santa Marcelina, 2015
São Paulo, Brasil.