GUARDAR UMA COISA

 

           Na década de 1960, a coreógrafa e bailarina americana Trisha Brown decidiu, enquanto dançava no palco, olhar para as pessoas que a olhavam dançar. Não se tratava de um enfrentamento, de um olhar dramático ou que pretendia algum confronto, mas de encarar e guardar no corpo o trânsito de olhares que aconteciam naquele espaço de movimento. Seu corpo tinha decidido observar cada corpo. Dali em diante, o rigor estrutural e a eloquência física de seus movimentos passaram a ser vivenciados de forma elementar, em seu contexto mais essencial, sem uma coreografia do gesto.
Tal como nas performances de Brown, os trabalhos da artista Brisa Noronha ocorrem a partir de gestos não idealizados e se deixam fermentar com energias advindas dos outros corpos num processo de dupla vidência – aquilo que olhamos também se presentifica nos olhando. E nos faz perceber cada componente em seu lugar: pedrinhas, quedas, papel, imagem, porcelana, superfície, brancos. São quebras, repousos, estilhaçamentos, equilíbrio, buracos e fendas. Topografia, coleção de gestos repetitivos e uma cartografia não lógica são as rotinas de desenho desses objetos no espaço. Assim, se organizam espacialmente, quando se aglomeram ou quase se esbarram. Guardam acúmulo de gestos e espessuras, tempos passados de amassar, de calor, de espera. Buscam algum eco de seus movimentos, um fio de troca entre os sentidos de todos os corpos e espaços envolvidos nessa visibilidade. E nos propõem perceber seu opaco silêncio, seu atrito seco.
Enquanto mira o espaço que seus trabalhos irão adentrar, em sua primeira individual, Brisa efetiva a simplicidade de um gesto qualquer. Que é fatura, modo de estar com a matéria, instância do fazer, da lida, é relação com os impasses das técnicas, com os tantos riscos de se estar em processo de urdidura das coisas. Esta simplicidade do “qualquer” não se relaciona com uma natureza do “não importa qual”, com o que aparece como indiferente. O “qualquer” é a natureza da coisa aceita, que adere, que se torna parte de algo e o modifica, que é acolhida em sua potencialidade de coisa a vir a ser em sua diversidade e mutabilidade. O “qualquer”, quando conjugado nos gestos de Brisa, pode ser percebido como o movimento, em sua singularidade, cuja lógica de comportamento não visa inaugurar um produto por meio de um predicado pré-existente ou classificável, mas sim, em sua própria afirmação de coisa que se dá no tempo do processo, tornando-se experiência.
Assim, diante da inquietação acerca de um gesto qualquer, podemos pensar nessa experiência de olhar fora do roteiro de tarefas ou vocações a que a arte foi circunscrita. Podemos nos colocar diante da ideia de que os gestos da artista não projetam nem prometem origem e destino. Querem apenas ser coisa aos nossos olhos, ato de existência como possibilidade ou falha, como instante ou contratempo, como insistência no corpo ou lampejo quase invisível. Dessas indefinições de não pertencer e não querer afirmar-se como coisa fechada em si, os trabalhos de Brisa Noronha nos chamam a habitá-los e guardá-los como “existências mínimas”. Ou seja, um modo de ser que o filósofo Étienne Souriau definiu, em 1938, em seu inventário sobre os diferentes estados de existência no mundo como “aquilo que poderia ser se...”. Os trabalhos de Brisa Noronha são aquilo que, na condição de estarem diante do olhar, convidam a experienciar e, ao mesmo tempo, enunciar uma existência temporária, tardia, fluída, fragmentada.

 

Galciani Neves

Galeria Murilo Castro, 2018

Belo Horizonte,Brasil.       

        

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PRÓLOGO

           Ao impor regras, padrões e preceitos para a realização de seus trabalhos, Brisa Noronha acaba por se concentrar no exercício empírico do fazer, que encontra seu desfecho na ordenação e organização do resultado de seus esforços. Empilhados, expostos lado a lado, organizados por tamanho, por afinidades ou decisões inconscientes da artista, esses objetos concentram nossas atenções sobre suas qualidades físicas, sua translucidez, sua rugosidade ou falhas de execução, e deslancham no espectador um processo de contemplação silenciosa dos mais notáveis. Esses conjuntos de elementos, cada qual com sua personalidade, seus defeitos e idiossincrasias, tem em suas origens um tema básico que acaba por ser variado em diferentes modulações e registros, e que nos colocam frente a frente a um sofisticado jogo de oposições.
 

Giancarlo Hannud

Publicado no catálogo Prólogo
31 Anual de Arte da Faculdade Santa Marcelina, 2015
São Paulo, Brasil.